Já algum tempo, que desejava fazer este artigo, sobre a história recente da Apple e de que forma a Apple poderá estar a sofrer com o seu próprio sucesso. Aviso desde já que o artigo é longo, mas tinha que o fazer.
Em Junho de 1997, a Wired destacava na sua capa que a Apple podia estar perante um final penoso. A empresa estava praticamente na falência e sem rumo. No entanto, em 1997, a empresa já era liderada por Steve Jobs, que tinha regressado em 1996, após a aquisição da NeXT por parte da Apple, empresa criada por Jobs após a sua saída da Apple depois de 1985, o que permitiu regresso do seu fundador.

Depois do seu regresso, Steve Jobs tornou-se no CEO interino depois da saída de Gil Amelio, que terá perdido a confiança no conselho de adminstração. A partir desse momento, Steve Jobs iniciou um processo de recuperação da empresa. Em bom português, esteve até 1998 a arrumar a casa e a dar um novo rumo à empresa de Cupertino. Em 2000, torna-se no CEO efectivo da Apple.
Claramente estamos sobre o primeiro grande momento da recuperação da Apple, que passou pela intervenção e parceria da Microsoft, fundamental para injectar capital num momento tão importante e garantir a presença de algum software da Microsoft no Mac OS X nos anos que se seguiram.

O segundo grande momento, foi sem dúvida o lançamento do primeiro iPod em Outubro de 2001. O mercado da música nunca mais seria o mesmo a partir daí.
Um dispositivo portátil, com boa capacidade de armazenamento, um interface inovador, a implementação da click wheel, que já apontava a direcção para a interacção através do toque.
O iPod trouxe consigo também o iTunes. Para além de ser um Media Player (mais robusto que o Quick Time) do Mac OS X, tornar-se-ia na aplicação que ia permitir sincronizar as nossas músicas com o iPod. Permitia também facilmente ripar os nossos cds para o disco, ficando as músicas disponíveis para sincronizar com o iPod. É aqui que entra a iTunes Music Store. A partir desse momento, a Apple conseguia criar uma plataforma que permitia facilmente ao utilizador, não só sincronizar a música com o seu iPod, como também adquirir a música através dessa mesma plataforma. No entanto, o iTunes é também revolucionário porque chega também aos utilizadores de Windows.
Era claramente o momento da emancipação do iPod, chegando ao maior número de pessoas e de utilizadores, fossem eles "Mac Users" ou "Windows Users". De resto, foi-se percebendo ao longo do tempo, que um utilizador Windows, proprietário de um iPod, tornava-se num potencial "Switcher", isto é, alguém que se torna num "Mac User". Foi evidente, a dada altura, que o iPod se tornou num objecto utilizado pela Apple, para captar novos utilizadores para a plataforma Mac, numa espécie de política de cross-selling.
Com a evolução do iPod, também a loja online do iTunes foi evoluíndo, disponibilizando não só música, como séries de TV, filmes, bem como outro tipo de conteúdos gratuitos, como Podcasts. Assim, a iTunes Music Store, passa somente a iTunes Store, considerando os múltiplos formatos entretanto disponibilizados.
É mais ou menos nesta altura, que eu acordo para a realidade da Apple e começo aos poucos a ganhar interesse em relação à marca da maçã, sobretudo por culpa dos Podcasts, que tinham um enorme destaque na iTunes Store.
Portanto, em 2005, temos uma Apple em franca expansão, com produtos de alta qualidade, com um design sem paralelo e a piscar o olho às massas, através do iPod e através deste, tentar captar novos utilizadores para o mundo Mac e sempre com uma legião de fans a acompanhar a marca, por vezes, de forma completamente cega, quase uma religião e muitos deles completamente anti-Microsoft, esquecendo-se do papel fundamental que esta teve no processo de recuperação da Apple.
É também em 2005, que se inicia outro grande momento da vida da Apple, quando a mim, o ponto de viragem. Começa o processo de migração dos processadores PowerPC, que até aí, equipavam toda a gama de Macs, pelos processadores Intel.

Esta decisão, foi olhada de lado pelos puristas da Apple. Mais uma vez, a Apple seguia o rumo da massificação, uma vez que estas máquinas teriam também finalmente a possibilidade de instalar o Windows de raíz. Ou seja, os Macs tornavam-se finalmente mais interessantes para quem tinha receio em mudar de Windows para Mac OS X. Se a adaptação falhasse, havia sempre o Windows. No entanto, os puristas esqueciam-se que quando isso acontecesse, já o utilizador tinha comprado uma máquina Apple. Se o Windows se tornasse para muitos no sistema operativo pré-definido, já pouco importava. A máquina estava vendida. O tempo veio provar que de facto, quem compra um Mac, acaba por saber ao que vai e o Windows acaba por se tornar coisa do passado.
Em poucos meses, a migração estava concluída e as vendas começavam a aumentar e trimestre a trimestre, os resultados demonstravam que nunca se tinham vendido tantos Macs e esta frase é repetida sempre que há apresentação de resultados, o mesmo acontecendo com o iPod, que entretanto, já tinha extendido a gama de modelos. Para além do Classic (denominação atribuída recentemente), a Apple passou a apresentar o Shuffle e o Nano (que substítuiu o Mini).
Chegamos então a Janeiro de 2007, altura em que a Apple marca presença na MacWorld, como habitualmente, cuja abertura é sempre da responsabilidade de Steve Jobs e a habitual keynote. Este é sem dúvida um momento fundamental para entendermos a Apple de hoje.
É nesta apresentação que Steve Jobs, apresenta 3 novos dispositivos. É um iPod, é um dispositivo de Internet e um telefone...ou melhor...são 3 funções reunidas num único dispositivo. Estou obviamente a falar do iPhone, que seria lançado em Junho desse ano.

Para além das funções destacadas, o iPhone marcou o arranque da tecnologia multi-touch integrado, como é habitual na Apple, num interface intuitivo e inovador, já para não falar do design minimalista que marca os produtos Apple.
Contudo, este lançamento poderá marcar a Apple pela positiva e pela negativa.
A bater recordes de vendas a todos os níveis, a Apple tornou-se numa marca de massas e esse facto obrigou a um crescimento da própria Apple. A questão passa por perceber se a Apple consegue responder eficazmente ao seu próprio crescimento. Estará a Apple preparada para a sua própria dimensão?
Com o lançamento do iPhone, o desenvolvimento do Leopard, o Mac OS X mais recente, foi prejudicado e a data de lançamento adiada. Sendo o Tiger, a versão anterior do Mac OS X, uma versão amada pelos utilizadores de Mac, o seu sucessor teria que ser no mínimo, igual, em termos de fiabilidade e estabilidade. Depois do seu lançamento em Outubro de 2007, percebeu-se que o Leopard teria ainda um longo e tremido caminho pela frente e que provavelmente a versão que foi lançada, seria ainda uma versão Beta. Apesar do desastre do Windows Vista, lançado no início de 2007, a Apple não podia adiar mais o lançamento do seu novo sistema operativo.
Chegados a 2008, encontramos uma Apple que começa a ter problemas na qualidade dos produtos que apresenta. São diversos os casos em que o MacBook acabou por derreter com o calor gerado pelo processador, que há peças da sua estrutura que acabam por partir ou que os parafusos do lado esquerdo só lá estão para enfeitar, já para não falar do MagSafe, que poderá também apresentar alguns problemas (de resto, a Apple assumiu ontem mesmo que trocará todos os MagSafe gratuitamente, estejam dentro ou fora da garantia).

Um ano depois do lançamento do iPhone original, é lançado o iPhone 3G em 11 países, grupo onde está incluído Portugal. Ao contrário do que aconteceu com o original, esta versão está a dar fortes dores de cabeça à Apple. Firmware com problemas (mais uma vez, dando a sensação que estamos perante uma versão Beta), a versão Branca de 16GB a apresentar rachas no plástico, problemas de conectividade no 3G, faltando confirmar se é um problema de software ou uma falha grave de hardware no chip da Infineon e no dia de lançamento, o processo de activação do iPhone apresentou períodos longos de indisponibilidade, muito por culpa do novo processo de activação, realizado no acto da compra. Houve quem não tivesse conseguido adquirir o iPhone, por causa desse facto. A estes problemas, podemos acrescentar toda uma confusão e polémica gerada em torno dos preços e tarifários nos países onde tem sido lançado. O problema passará naturalmente pelos operadores, mas a Apple, claramente não sai bem da fotografia, apesar do sucesso do iPhone 3G.
A 2 dias do lançamento do iPhone 3G em mais 21 mercados, com um sucesso esmagador nos 11 países onde já foi lançado, com as aplicações para o iPhone vendidas na App Store a baterem igualmente recordes, com as vendas de Macs sempre a subir, a Apple vê-se confrontada com um conjunto de problemas.
O primeiro grande problema começa pela liderança. A história da Apple confunde-se com a vida de Steve Jobs e tendo ele, um historial em termos de problemas de saúde, qualquer sinal de agravamento do seu estado de saúde, afecta necessariamente o comportamento do título da Apple nos mercados bolsistas, influenciando obrigatoriamente as contas e resultados da empresa. A forma como se apresentou na WWDC de 2008, onde apresentou o iPhone 3G, veio colocar em cima da mesa, a questão da sucessão e qual será o futuro da empresa de Cupertino sem Steve Jobs à frente.
De repente, temos uma empresa que demonstra que poderá estar a colocar de lado o controlo de qualidade dos seus produtos, para que consiga responder a todos os pedidos, está apresentar problemas de software a vários níveis. A Apple é conhecida por demorar a corrigir erros graves de segurança, nomedamente no Mac OS X. O firmware do iPhone continua a dar problemas apesar das actualizações e o MobileMe, lançado paralelamente com o iPhone, tem sido um completo desastre, com sucessivos pedidos de desculpas e prolongamento do período experimental, tudo porque a Apple cometeu a loucura, no passado dia 11 de Julho de lançar 4 produtos: iPhone 3G, fimrware 2.0, a App Store e o MobileMe.

Por isto tudo, não é de admirar o conteúdo da capa da Wired de Abril deste ano, uma clara evocação da famosa capa de 1997, mas desta vez, uma Apple Genial, mas também Demoníaca, que por vezes, parece que não olha aos meios para conseguir atingir os fins, isto é, bater a concorrência de forma esmagadora, obtendo de resultados nunca vistos. Infelizmente, a Apple tem provado que isso poderá prejudicar os utilizadores e muitos deles, antigos utilizadores Apple, olham para esta Apple de 2008 de forma desconfiada.
Em resumo, a Apple está a ser vítima do seu próprio sucesso. Se chegaram até este ponto do texto, terão reparado que há um destaque para os dois/três últimos anos, entre 2005 e 2008. Em 2005, a Apple era um assunto restrito aos sites e blogs dedicados a esse universo e praticamente só o iPod conseguia chegar às revistas e sites mais generalistas. Hoje, há Macs em todo o lado. Facilmente se vê um iPod e o iPhone anda nas bocas do mundo e toda a gente reconhece facilmente a maçã.
Só para ser ter uma ideia deste crescimento assustador, podemos pegar no preço das acções da Apple. Em Outubro de 2001, quando foi lançado o iPod, valiam cerca de 9 dólares. No final de 2005, já valiam cerca de 75 dólares. Arranca o ano de 2007 a valer 85 dólares e acaba o ano a valer mais de 199 dólares, tendo ultrapassado os 200 dólares durante a sessão.
Estes números demonstram bem, como cresceu rapidamente a empresa de Cupertino...resta saber se a Apple conseguirá passar por cima de tudo isto, e conseguirá atingir a dimensão que tanto ambiciona, conseguindo oferecer tudo aquilo que ofereceu no passado, produtos de qualidade e inovadores, produtos fiáveis e duradouros, qualidade nos serviços que oferece, como a iTunes Store e o MobileMe.
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