No passado fim de semana, o Triplos do Costume, juntaram-se para gravar mais uma emissão do Triplo Expresso, dedicado a Direitos de Autor, DRM e Creative Commons, que contou com a participação da Paula Simões e Marcos Marado (muito obrigado aos dois, foi mais um belíssimo programa).
Pessoalmente, são temas que nos permitem seguir por diversos caminhos, qualquer um deles, com a devida complexidade, mas há um que me é mais caro...o efeito dos direitos de autor num mundo globalizado, onde o papel da Internet é cada mais essencial.
Uma das situações que me deixa mais incomodado na Internet, é chegar a um determinado site com conteúdos vídeo, por exemplo, que estamos apenas disponíveis para os Estados Unidos.

Serviços como o hulu.com ou alguns vídeos do YouTube (que tem ampliado os acordos com grandes cadeias de TV e estúdios), apresentam este tipo de protecção que acaba por prejudicar os próprios autores e espectadores. Já todos sabemos que este tipo de protecções (a par do DRM), estimulam a prática de actos ilícitos, porque, a própria Internet, apresenta um conjunto de ferramentas que permitem ultrapassar os tais limites regionais e ter acesso ao conteúdo, já para não falar das outras formas de obter conteúdos.
Reparem na injustiça deste sistema. Se forem a uma Fnac ou acederem à Amazon inglesa e conseguem, adquirir alguns conteúdos que não estão disponíveis em Portugal e podem fazê-lo de forma completamente legal. Ou seja, conseguimos adquirir, uma determinada série que nunca sabemos se será transmitida ou comercializada em DVD em Portugal, de forma legal e se tentarmos fazê-lo através da Internet, temos um conjunto de entraves, que não fazem qualquer tipo de sentido.
Não seria mais justo, criar um sistema global de acesso a conteúdos, baseado por exemplo, em publicidade, como acontece no hulu.com? Provavelmente, quem vê hoje as séries através das nosssas televisões, vai continuar a fazê-lo e quem o faz através da Internet, vê a sua "actividade" legalizada, eventualmente ajudando ao seu financiamento, através de publicidade, porque, nos dias de hoje, acabamos por ter acesso aos conteúdos, não existindo retorno financeiro para quem transmite esse conteúdos e acabamos, de qualquer forma, por não comprar os DVDs.
Outra questão, está relacionada com a qualidade. 99% das séries transmitidas nos Estados Unidos estão acessíveis em HD e são posteriormente transmitidas em Portugal, em Standard Definition. Mais uma vez, estão a claramente a estimular a obtenção de conteúdos HD através de outros meios. Mesmo que não consigam obter a versão HD, qualquer versão 16:9 será melhor que as versões 4:3 que passam em Portugal. Infelizmente, em Portugal prefere-se investir (e incorrectamente) em conteúdos móveis que ninguém utiliza e ainda ninguém "agarrou" verdadeiramente no HD, quando até já temos "boxes" com HD e DVR e um interessante universo de LCDs e Plasmas nas casas portuguesas.
Voltando aos conteúdos online, felizmente, existem bons exemplos, como o Daily Show, o Colbert Report e o South Park, que transmitem livremente, "worldwide" os episódios completos. Será que a SIC Radical é prejudicada porque detém os direitos para Portugal do Daily Show e do South Park?
Numa altura em que se discute tanto a globalização e os efeitos globalizantes da crise, não seria interessante discutir esta questão? Bem sei que é um assunto menor, num ambiente de crise, mas quem diz "séries", diz conteúdos em geral cuja propriedade está nas mãos de grandes empresas e o acesso com limitações afecta a forma como se partilham os conteúdos e a cultura no séc. XXI...afinal foi há menos de 200 anos que começamos a "limitar" os direitos de acesso à cultura...
Update: Ora aqui está um exemplo.
De
Carbono a 17 de Novembro de 2008 às 19:45
Olá! Quanto ao assunto de conteúdo online exclusivo para os EUA, há uma maneira de contornar isso, aliás temos um post acerca disso no blog aclockworkapple.wordpress.com. Pode ser que te dê jeito ;)
Abraço
De
Phil a 17 de Novembro de 2008 às 22:23
Há várias maneiras...em bom rigor, todas ilegais e é disso que trata o post...é um sistema sem sentido e desactualizado!
Tenho pena de não poder ter acesso aos conteúdos da itunes store americana. Apesar de ter conta, não posso associar o Visa, já que não me importava nada de pagar 1€ por um episódio em HD. Sendo assim limito-me a sacar, já que não estou para esperar que apareçam numa fnac.
De
Phil a 19 de Novembro de 2008 às 15:34
Ora aí está um belíssimo exemplo...alguém (como eu), não se importaria de pagar 1 Euro por um episódio de uma série em HD...estaria a fazê-lo de forma perfeitamente legal...assim, estamos a consumir o produto à mesma...não o vamos ver na TV, muito provavelmente não o vamos comprar em DVD...e nada tivemos que pagar...porque o acesso ao conteúdo é restrito ou limitado.
Até vou mais longe, visto não ter grande paciência para esperar para sacar em p2p, não me importo de pagar em troca de um serviço de qualidade, tendo por habito comprar uma conta rapid share, que por exemplo, por mês fica por 7€. Ora esses 7€ já davam, não a pagar a totalidade, mas sim uma grande parte dos conteúdos que consumo, tendo mais qualidade. Fala-se muito da pirataria, mas a verdade e que não vejo em Portugal, um modelo de negocio eficaz, que permita as pessoas consumirem legalmente. O caso da appstore é um bom exemplo, não me importo nada de pagar algumas aplicações, alias, assim o tenho feito, prefiro dar 0.79€ por uma coisa de qualidade, do que gastar em tantas outras coisas.
De Zé da Burra o Alentejano a 3 de Fevereiro de 2009 às 17:23
A Globalização, tal como foi concebida, vai determinar o fim da Europa social que conhecemos.
Não se trata apenas da crise bolsista e monetária, o Ocidente caiu numa armadilha chamada Globalização que as grandes Companhias lhe venderam com promessas que desconheço mas que visavam maiores lucros para as companhias que pretendiam aproveitar-se dos baixos custos de produção no extremo oriente, em virtude dos baixos salários e da inexistência de obrigações sociais. O resultado não será o esperado porque esses países têm ainda um baixo poder de compra e os altos níveis de produção destinavam-se sobretudo à exportação para o ocidente onde se encontram as populações com maior poder de compra agora em rápido declínio, fruto do descalabro da globalização. Ao aderirem ao desafio dessa globalização, os países da União Europeia (e não só) prometeram ao seus cidadãos que as suas economias se tornariam mais robustas e competitivas (não sei bem como) e não exigiram aos países do oriente que prestassem às suas populações melhores condições sociais, como: regras laborais justas, melhores salários, menos horas e menos dias de trabalho, férias anuais pagas, assistência na infância, na saúde e na velhice para poderem aceder livremente aos mercados ocidentais. Não! optaram por abrir as portas à importação sem essas condições, criando assim uma concorrência desleal e “selvagem” da qual o ocidente nunca poderá ganhar. A única solução seria a de nivelar as condições sociais dos trabalhadores ocidentais pelas desses países, que são miseráveis. É a isso que estamos a assistir neste momento e daí toda a revolta que se observa nos vários países da UE. Acresce que os países cujas portas o ocidente franqueou nem sequer estão comprometidos com a defesa do ambiente e as suas tecnologias são mais baratas mas altamente poluidoras o que ajuda ainda mais a ditar a “sentença de morte” do ocidente.
Mas será que os trabalhadores ocidentais vão aceitar trabalhar a troco de um ou dois quilos de arroz por dia, sem direito a descanso semanal, férias, reforma na velhice, etc...? Não! O resultado será um lento definhar em direcção ao caos enquanto umas empresas fecham portas para sempre e outras se deslocarem para a China ou para Índia para não serem sufocadas pela concorrência e mesmo essas terão que reduzir a sua produção porque o poder de compra acidental está em queda rápida. Entretanto, no ocidente a indigência, a marginalidade e o crime mais ou menos violento irão crescer e atingir níveis inimagináveis, apenas vistos em filmes de ficção ou referidos nos escritos bíblicos do apocalipse. A época áurea Europa e do ocidente será coisa do passado. Espera-nos uma espécie de nova “Idade Média” onde restarão uns quantos previlegiados, protegidos por alta segurança, enquanto desaparecerá a classe média e de remediados. Há que recuar e já é tarde!
Comentar post